A diabetic patient using insulin pen for making an insulin injection at home. Young woman control diabetes. Diabetic lifestyle

Crédito: Freepik

Como o Ozempic realmente atua dentro do seu corpo, segundo Drauzio Varella

O avanço dos medicamentos para emagrecimento sempre foi limitado pela dificuldade de interferir, com segurança, nos mecanismos que regulam a fome. “Quem tem tendência a engordar sabe como é difícil perder peso”, afirma o médico e divulgador científico Drauzio Varella, ao explicar por que o organismo tende a preservar ao máximo o peso já alcançado.

Durante décadas, segundo ele, “a medicina não conseguiu produzir medicamentos eficazes que fizessem a pessoa emagrecer de verdade”. A virada veio com a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, criada originalmente para o diabetes — e que, inesperadamente, mostrou efeitos expressivos na perda de peso.

Hoje, o remédio se tornou fenômeno global. Mas, como alertam médicos, seu uso indiscriminado se transformou em um problema de saúde pública. Nesta matéria, explicamos como o Ozempic age dentro do corpo, reunindo as explicações de Drauzio Varella e do professor Gustavo Penna, da Faculdade de Medicina da UFMG.

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O que a ciência descobriu sobre a semaglutida

O Ozempic é um análogo do hormônio GLP-1, substância naturalmente produzida no trato gastrointestinal. “Ele mimetiza esse hormônio, agindo no centro da fome, dando uma saciedade mais precoce ao indivíduo”, explica o professor Gustavo Penna, especialista em Endocrinologia e convidado do programa Saúde com Ciência da UFMG. Segundo ele, o medicamento retarda o esvaziamento gástrico, fazendo com que a sensação de plenitude apareça cedo e dure mais tempo. Isso reduz a ingestão calórica mesmo sem esforço consciente.

Drauzio Varella descreve o processo de forma simples: “O Ozempic atua no mecanismo que controla a fome e a saciedade. Quando a gente se alimenta, chega um momento em que está na hora de parar de comer; ele interfere nesse processo por meio de mediadores químicos.”

Além disso, a semaglutida melhora a ação da insulina, tornando-a especialmente eficaz para pessoas com diabetes tipo 2. Foi assim que o medicamento nasceu — e só depois se confirmou o impacto surpreendente sobre o peso.

Como perder peso com Ozempic?

O entusiasmo em torno do Ozempic não veio apenas de estudos clínicos. “Aí um fala para o outro, que fala para outra, e vai embora”, diz Drauzio, ao comentar a popularização do remédio. Em pesquisas, a perda de peso pode chegar a 17% do peso corporal, índice muito superior ao observado com medicamentos como sibutramina ou orlistate.

Penna lembra que há outros fármacos da mesma classe, como a liraglutida e o Wegovy — este último com doses maiores de semaglutida, aprovado para obesidade. O mecanismo, porém, é o mesmo: redução da fome, maior saciedade e melhora metabólica.

Os efeitos psicológicos também são relevantes. “O ânimo muda”, observa Drauzio. A pessoa se sente mais motivada ao ver resultados significativos, em contraste com dietas tradicionais, nas quais o esforço muitas vezes não acompanha a balança.

Os riscos do uso do  Ozempic sem orientação médica

O problema, alertam os médicos, não está no medicamento em si, mas na forma como tem sido utilizado. “Hoje é um medicamento muito popular, vendido sem receita médica”, critica Drauzio. “A maioria das pessoas toma para perder peso, e começa a usar por conta própria a dose que ouviram da vizinha.”

A prática é perigosa por vários motivos:

  •       Efeitos colaterais importantes: náuseas, vômitos, diarreia e desidratação podem levar ao pronto-socorro.
  •       Falta de ajuste adequado de dose, que deve ser progressivo.
  •       Interferência no acesso de pacientes diabéticos, já que a demanda descontrolada gera escassez.

“Não façam isso”, reforça o médico. “Se estiver interessado em tomar a medicação, procure um médico. Não é uma droga que possa ser usada por conta própria.”

Penna lembra ainda que a indicação correta depende do IMC: acima de 27,5 com comorbidades ou acima de 30. O uso estético, para “perder dois ou três quilos para ir a um casamento”, como critica Drauzio, não é considerado adequado.

O Ozempic deve ser usado por quanto tempo?

Ao contrário de fármacos mais antigos, como a sibutramina, a semaglutida pode ser usada por períodos longos. Estudos mostram benefícios adicionais, como redução do risco de novos eventos cardiovasculares em pessoas que já sofreram infarto, segundo Penna.

A manutenção, porém, precisa de acompanhamento regular para avaliar ajustes de dose, evolução do peso, efeitos adversos e impacto metabólico — algo impossível para quem se automedica.

A chegada da semaglutida marca um ponto de inflexão no tratamento da obesidade. A combinação de eficácia consistente, segurança adequada e benefícios metabólicos aproxima a medicina de um velho desafio: tratar a obesidade como doença crônica, e não como falha de força de vontade.

Mas, como alerta Drauzio Varella, nenhum avanço resiste à automedicação. O Ozempic pode transformar vidas, desde que usado com responsabilidade, indicação precisa e supervisão contínua.

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