Crianças e adolescentes podem fazer musculação? Renato Cariani explica
A ideia de que musculação “trava o crescimento” de crianças e adolescentes voltou ao centro do debate após uma fala de Renato Cariani no Flow Podcast, durante conversa com Igor 3K. Ao comentar a rotina de treino do próprio filho, que começou a praticar musculação aos 10 anos, Cariani foi direto ao ponto: a crença de que o treino de força prejudica o crescimento não passa de um mito herdado de gerações anteriores.
“É um erro as pessoas acharem que treino de força retarda ou atrapalha o crescimento da criança em estatura. Isso é coisa da época dos nossos pais”, afirmou Cariani no Flow. Segundo ele, além de não prejudicar, a musculação pode contribuir positivamente para o desenvolvimento físico e emocional, desde que seja bem orientada. “Você pode colocar seu filho para treinar, não tem perigo. Pelo contrário, vai ajudar ainda mais na força e no desenvolvimento dele”, disse.
Musculação para crianças: autoestima, desenvolvimento e exemplos práticos
No podcast, Igor também destacou o impacto da musculação na autoestima durante a transição da infância para a adolescência. Ele citou exemplos próximos, como o sobrinho do amigo Júlio Balestrin, que passou por mudanças corporais visíveis após iniciar o treino de força.
Segundo Cariani, esse período costuma ser marcado por inseguranças, comparações e dificuldades de aceitação corporal. “Tem muitos garotos e garotas que sofrem muito nessa fase, e a musculação melhora bastante isso”, afirmou.
O que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria
As declarações feitas no Flow encontram respaldo científico. A Sociedade Brasileira de Pediatria lançou recentemente um documento científico justamente para esclarecer pais e responsáveis sobre os impactos da atividade física — incluindo a musculação — na saúde de crianças e adolescentes.
De acordo com a SBP, “as atuais evidências científicas corroboram que a atividade física é segura para a população pediátrica, quando executada em intensidade leve ou moderada, tanto em práticas aeróbicas quanto anaeróbicas”. O texto destaca benefícios amplos, como redução da pressão arterial, prevenção da obesidade e melhora do perfil lipídico.
No que diz respeito ao crescimento ósseo, a entidade afirma que antigas preocupações já foram superadas. “O atual consenso científico indica a infância e a adolescência como um momento oportuno para o processo de modelação e remodelação óssea”, diz o documento. Segundo a SBP, durante o exercício, a contração muscular estimula áreas ósseas próximas às inserções musculares, promovendo aumento da mineralização óssea.
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Quando e como a musculação infantil pode ser indicada
A publicação da SBP recomenda, inclusive, o treinamento de resistência para crianças a partir dos 8 anos, desde que respeitados critérios claros. “São indicados programas graduais, com pesos livres de até 15 kg, por não mais que 30 minutos e até três vezes por semana, sempre com supervisão individual”, orienta o texto. A associação com exercícios aeróbicos também é considerada fundamental.
Uma revisão sistemática citada pela entidade analisou crianças de 7 a 12 anos e concluiu que o treinamento de força não interfere negativamente no crescimento linear. “Meninos e meninas pré-adolescentes apresentam ganho de força muscular sem hipertrofia muscular; após a puberdade, ocorre hipertrofia real, mas sempre sem limitar o crescimento linear”, afirma o documento.
Riscos existem, mas estão ligados ao exagero
A SBP faz ressalvas importantes. Segundo o texto, os principais riscos surgem quando o treinamento é feito de forma inadequada, sem respeitar idade, maturidade biológica e estado de saúde. Entre os problemas citados estão lesões musculoesqueléticas e alterações hormonais, especialmente quando cargas excessivas são combinadas com dietas de baixa ingestão energética.
“Cargas pesadas de treinamento, principalmente quando associadas a distúrbios alimentares, podem atrasar os marcos da puberdade”, alerta a entidade. Em contrapartida, o documento ressalta que, em esportes sem controle rigoroso de peso, não há evidências de impacto negativo no crescimento ou no desenvolvimento puberal.
Além do corpo, a SBP destaca efeitos positivos do exercício físico sobre a cognição. “O exercício melhora o suprimento de oxigênio e nutrientes para o cérebro, estimulando a maturação das áreas motoras e o desenvolvimento neurológico”, afirma o texto. Há evidências de melhora do bem-estar psicológico, da autoestima e da tolerância à dor em crianças fisicamente ativas.
“Crianças em idade escolar que praticam ao menos uma hora diária de atividade física apresentam funcionamento cognitivo significativamente melhor”, conclui a publicação, ao mesmo tempo em que lamenta que apenas cerca de um terço das crianças pratique esportes regularmente.

