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Crédito: reprodução

O lado obscuro do mercado de suplementos no Brasil

Em entrevista ao Sem Groselha Podcast, o nutricionista e pesquisador Lincoln Almeida analisou o crescimento do mercado de suplementação no Brasil, abordando tanto as razões comportamentais que levaram à expansão desse setor quanto o lado mais problemático e perigoso de uma indústria que movimenta bilhões de reais todos os anos.

Antes de entrar nas supostas irregularidades, Lincoln explicou por que os suplementos se tornaram tão populares. Ele relacionou o fenômeno ao que chama de “teoria do comportamento planejado”, tema de seu mestrado, que explica os fatores psicológicos e sociais por trás das decisões de consumo.

Segundo ele, esse comportamento é guiado por três pilares: a atitude, as normas sociais e o controle percebido. “A atitude é quando a pessoa acredita que algo funciona — ela acha que o suplemento vai trazer um benefício. As normas sociais dizem respeito ao grupo: se os amigos ou influenciadores usam, isso gera aceitação. E o controle percebido é quando a pessoa sente que tem condições de comprar e usar o produto sem prejuízo”, explicou.

O mercado de suplementos no Brasil

Com base nisso, Lincoln observa que muita gente consome suplementos mais por pertencimento social e influência cultural do que por necessidade real. “É muito mais uma questão cultural do que objetiva. As pessoas estão menos preocupadas com o resultado e mais com o grupo em que estarão inseridas ao tomar determinado produto”, afirmou.

Ele citou inclusive um estudo do Comitê Olímpico Internacional (IOC) que investigou os motivos pelos quais atletas e praticantes de atividade física consomem suplementos. “Uma das respostas mais comuns foi just in case — ou seja, ‘vou tomar porque vai que ajuda’. Existe essa ideia de que, se eu não tomar, posso estar perdendo desempenho. E há também a influência dos atletas e influenciadores que associam seus resultados ao uso de certos produtos”, acrescentou.

O problema dos “encapsulados milagrosos”

Após contextualizar o comportamento do consumidor, Lincoln destacou o que considera o grande problema atual no Brasil: a venda desenfreada de cápsulas e gomas com promessas milagrosas.

“Hoje nós temos um problema gigantesco no país, que é a venda dos tais encapsulados. Pessoas ficam milionárias, bilionárias, vendendo produtos que não servem para absolutamente nada. Mas eles têm um marketing extremamente agressivo”, disse.

Esses produtos, segundo ele, normalmente são feitos à base de fibras, extratos vegetais ou multivitamínicos, mas vendidos com promessas de emagrecimento rápido, ganho de massa muscular ou melhora hormonal. “A promessa é gigantesca. É o chamado produto de uma venda só: a pessoa compra por curiosidade ou esperança, testa, e nunca mais volta”, afirmou.

Ele citou ainda as chamadas “gominhas de creatina” e outros modismos semelhantes. “Para atingir a dosagem necessária, seria preciso consumir oito ou dez gomas por dia. Sai caro e é ineficaz, mas o marketing convence”, pontuou.

Lincoln explica que muitas vezes o consumidor acredita sentir resultados devido ao efeito placebo: “Dependendo do nível de comunicação e da qualidade do texto de venda, a pessoa realmente acredita que está melhorando, e o cérebro responde a isso”.

Mas o ponto mais grave, segundo Almeida, é o mercado clandestino de suplementação, que ele descreve como “um sistema criminoso em plena atividade no país”.

“Isso acontece principalmente no interior, com tráfego de anúncios direcionados para pequenas cidades. As pessoas criam compostos dizendo que são chás emagrecedores ou ervas encapsuladas, mas na verdade misturam medicamentos controlados dentro das cápsulas”, alertou.

Entre os exemplos mais comuns, ele cita o uso de sibutramina, substância anorexígena que exige prescrição médica. “A pessoa compra achando que está tomando um produto natural e, de repente, começa a emagrecer rápido. Claro, está ingerindo um medicamento escondido. Isso é crime”, disse.

Esses produtos, explicou, são muitas vezes fabricados no Paraguai e vendidos no Brasil com rótulos falsos. O esquema se baseia em uma estrutura móvel e difícil de rastrear. “Eles vendem muito, não têm registro porque se dizem fitoterápicos — isentos de registro no MAPA — e quando a polícia chega, fecham a empresa, somem e reabrem com outro nome em outro lugar”, detalhou.

O nutricionista afirma que esse modelo criminoso, chamado de “produto de uma venda só”, gera lucros milionários para os golpistas. “Eles vendem absurdamente, ganham muito dinheiro, e enquanto isso colocam a saúde das pessoas em risco”, completou.

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