Muzy e doces

Crédito: Reprodução / Freepik

Como parar de comer doces de uma vez por todas, segundo Paulo Muzy

Parar de comer doces não é apenas uma questão de força de vontade. Segundo o médico e fisiologista Paulo Muzy, o desejo frequente por açúcar está muito mais ligado a mecanismos de recompensa, adaptação do paladar e até alterações hormonais do que a simples “falta de disciplina”. Em uma fala detalhada, Muzy explica por que tentar cortar doces sem entender o contexto quase sempre leva ao efeito rebote. “O problema não é comer doce. O problema é sentir necessidade dele”, afirma.

Parar de comer doces começa pela reeducação do paladar

De acordo com Muzy, o maior erro de quem tenta abandonar o açúcar é substituir doces tradicionais por versões “fit” carregadas de adoçantes artificiais. Essa troca, segundo ele, pode piorar o problema.

“Quanto mais recompensa você se oferece, mais recompensa você vai buscar”, explica. “O adoçante artificial aumenta a potência do doce percebido pelo paladar. Quando você volta ao açúcar comum, precisa de muito mais para sentir o mesmo efeito.”

Na prática, isso significa que o caminho mais eficiente não é trocar açúcar por adoçante, mas reduzir progressivamente o estímulo doce. Preparar os próprios alimentos é uma das estratégias mais eficazes, pois permite controlar a quantidade de açúcar e diminuir aos poucos.

Muzy cita o próprio exemplo com sobremesas tradicionais, como o pudim de leite. Com o tempo, seu paladar se adaptou a versões muito menos doces, tornando as receitas convencionais excessivas. “Quando o paladar muda, o prazer continua — só que sem exagero.”

Essa visão é reforçada por estudos de comportamento alimentar: o paladar é treinável, e a redução gradual tende a gerar resultados mais duradouros do que cortes radicais.

Outro ponto central levantado por Paulo Muzy é que a vontade intensa por doce nem sempre nasce da alimentação em si. Muitas vezes, ela surge como resposta a restrição alimentar, longos períodos sem comer ou alterações hormonais.

“Ficar o dia inteiro sem comer e chegar à noite com vontade de doce não é vício. É fisiologia”, explica. O corpo interpreta a fome prolongada como emergência e busca alimentos de rápida absorção — exatamente o perfil dos doces.

Muzy também chama atenção para fatores como:

  •       uso de anticoncepcionais,
  •       TPM intensa,
  •       hipotireoidismo,
  •       hipogonadismo,
  •       algumas medicações psiquiátricas.

 

Nesses casos, o desejo por açúcar pode ser um sinal de desequilíbrio, não de falha moral.

Treinar melhora vontade de comer doces?

Além disso, o treinamento físico exerce um papel-chave. Exercícios intensos liberam catecolaminas como adrenalina e noradrenalina, que reduzem a necessidade de recompensa imediata. “No dia que você treina, sente menos vontade de doce. No dia que não treina, sente mais”, resume. Por isso, Muzy defende a importância de treinar inclusive aos finais de semana. Para ele, o treino funciona mais como regulador comportamental do que apenas como gasto calórico.

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As recomendações de Paulo Muzy encontram respaldo em entidades internacionais. A American Heart Association (AHA) destaca que monitorar o consumo de açúcar é parte essencial de um estilo de vida saudável para o coração, especialmente em pessoas com diabetes ou pré-diabetes.

Segundo a AHA, o excesso de açúcares adicionados — presentes em doces, bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados — contribui para ganho de peso e picos de glicose no sangue, aumentando o risco cardiovascular.

Entre as orientações práticas da entidade, destacam-se:

  •       reduzir gradualmente o açúcar adicionado em bebidas como café, chá e cereais;
  •       priorizar água e bebidas sem açúcar no lugar de refrigerantes e sucos adoçados;
  •       ler rótulos e escolher produtos com menor teor de açúcares adicionados;
  •       substituir açúcar por frutas inteiras para adoçar preparações;
  •       diminuir entre um terço e metade do açúcar em receitas caseiras;
  •       usar especiarias e extratos naturais (canela, baunilha, gengibre) para realçar o sabor;
  •       utilizar adoçantes de baixa caloria apenas como ponte temporária, enquanto o paladar é reeducado.

A entidade reforça que a adaptação do paladar acontece com o tempo e que pequenas mudanças sustentadas tendem a gerar grandes benefícios.

Tanto Paulo Muzy quanto a American Heart Association convergem em um ponto essencial: parar de comer doces não exige proibição absoluta, mas sim compreensão do próprio comportamento, ajustes graduais e atenção à saúde como um todo.

Educar o paladar, manter refeições regulares, treinar com consistência e investigar possíveis causas hormonais transforma o doce de uma necessidade compulsiva em uma escolha ocasional — e consciente. “Comer doce é normal”, resume Muzy. “O problema é quando você sente que precisa dele para funcionar.”

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