O grande problema do mercado de suplementos atual, segundo Lincoln Almeida
O mercado de suplementação vive um dos seus maiores auges — e, segundo o pesquisador e nutricionista Lincoln Almeida, isso está longe de ser apenas uma questão de saúde ou performance. Em entrevista ao Sem Groselha Poscast, ele analisou as razões por trás do crescimento exponencial desse setor e criticou a forma como marketing, influencers e pseudociência moldam o comportamento de consumo.
“Tudo o que a gente consome passa pela chamada teoria do comportamento planejado”, explicou Lincoln. “Ela se divide em três pilares: atitude, normas sociais e controle percebido. No caso dos suplementos, isso significa: eu acredito que funciona, as pessoas ao meu redor também acham que funciona e eu posso comprar sem grandes riscos.”
Segundo ele, é essa combinação que move bilhões de reais em vendas todos os anos — muitas vezes sem que os produtos realmente entreguem o que prometem. “O consumidor acredita que vai ter um benefício, o influencer reforça a sensação de pertencimento social, e o preço acessível fecha o ciclo. É uma engrenagem muito bem construída pela indústria”, observa.
Lincoln Almeida e suplementação esportiva
Lincoln destaca que há até uma categoria de consumo chamada just in case: “As pessoas tomam porque pensam: ‘vai que ajuda’. Mesmo sem certeza científica, elas acreditam que podem estar perdendo performance se não usarem.”
Outro ponto preocupante é o papel dos influenciadores fitness. “O marketing de suplementos explora exatamente essa lógica. As marcas colocam nas mãos de figuras populares produtos que muitas vezes não têm efeito real, mas são associados a resultados visuais impressionantes. O público pensa: ‘se ele usa, deve ser bom’, mesmo sabendo que aquele físico é fruto de genética, esteroides e anos de treino.”
Para Lincoln, há uma confusão deliberada entre imagem e realidade científica. “As pessoas não acreditam que vão ficar com o corpo daquele atleta só tomando creatina, mas acham que, de alguma forma, aquilo é aprovado por ele — e isso já é suficiente para convencer.”
No fim das contas, o maior problema do mercado, segundo Lincoln, é a manipulação do desejo. “A indústria aprendeu a vender não o produto, mas a sensação de pertencimento e aprovação. É menos sobre saúde e mais sobre status. E enquanto isso funcionar, o ciclo continua.”

